Dr. Saulo Maia
Médico Psiquiatra
CREMERS 39347
O custo oculto do masking na vida adulta
Você entra na sala e assume o personagem sem pensar. Seu sorriso é ensaiado. Sua risada acontece no momento certo. Sua postura, tom de voz e até as pausas são todos intencionais.
No momento em que você sai, você está mal-humorado, mas guardando isso para si. E assim que chega em casa, você vai para o seu quarto e se deita na cama — sem atender o telefone, navegando na internet sem pensar. Você está exausto.
Se você já saiu de uma reunião sentindo que "desempenhou um papel" em vez de participar como você mesmo, talvez tenha vislumbrado sua própria máscara no espelho.
Essa atenção consciente à forma como você interage para ser aceito é conhecida como masking. Isso envolve misturar-se, suavizar arestas, esconder instintos, fazer coisas que você realmente não quer e, às vezes, um trabalho de atuação completo. Não é de admirar que tantos autistas sejam atores na vida real.
Para a maioria dos indivíduos autistas, é uma performance diária. E embora possa fazer a vida parecer mais fácil por fora, por dentro pode deixá-lo esgotado, deprimido, ansioso e até com pensamentos de morte.
O que o masking realmente é
O masking — também referido como camuflagem ou camuflagem social — é uma estratégia complexa na qual indivíduos autistas suprimem comportamentos naturais e adotam traços sociais neurotípicos. Isso pode incluir imitar gestos ou o tom de voz de outras pessoas, forçar contato visual, roteirizar conversas e reprimir o stimming (autorregulação) ou respostas sensoriais. Pode até incluir simplesmente ir a eventos nos quais você preferiria ficar em casa, devido ao custo emocional e físico.
Por que as pessoas usam masking — e o que está em jogo
Muitos adultos autistas aprendem, muitas vezes sem perceber, a esconder suas diferenças. Eles observam, copiam e editam a si mesmos até que a pessoa que os outros veem seja apenas uma parte de quem eles são. Três pontos são essenciais no entendimento do masking.
Primeiro, o masking é uma resposta ao estigma e à necessidade de manter-se seguro. O custo de ser visivelmente diferente é a incompreensão ou a exclusão, e por isso as pessoas escondem suas diferenças. Em um estudo com mais de 200 adultos autistas, quanto mais estigma os participantes percebiam, mais eles camuflavam seus traços — especialmente em espaços profissionais e públicos.
Mesmo na infância, muitos indivíduos autistas já estávam aprendendo a esconder suas caracteristicas para se misturar. Isso, é claro, resulta na frase que as pessoas costumam dizer: — "Você nem parece autista".
Segundo, o masking cobra um preço sério na saúde mental. Uma revisão de estudos científicos de 2024 descobriu que a camuflagem está fortemente ligada à ansiedade, depressão e a um menor bem-estar geral. Outro estudo de larga escala confirmou que aqueles que mascaravam mais relataram uma qualidade de vida psicológica inferior, não importa quão "bem-sucedidos" parecessem por fora.
Terceiro, o masking pode acarretar consequências de vida ou morte. Pesquisas com estudantes universitários autistas revelaram que uma camuflagem mais elevada estava diretamente associada a pensamentos e comportamentos suicidas. Revisões mais amplas descrevem o mascaramento como um fator de risco persistente e transversal para a suicidalidade ao longo da vida.
Sinais de masking com os quais as pessoas podem se identificar
O masking pode ser invisível para os outros, e você talvez só o perceba em retrospecto.
Coisas que você pode reconhecer a si mesmo fazendo:
Pesquisas mostram consistentemente que esses comportamentos não são aleatórios — eles se agrupam em padrões identificáveis de compensação (tentar ativamente melhorar as habilidades de comunicação social), mascaramento(esconder características autistas) e assimilação (misturar-se ao ambiente social). Embora possam ajudar a navegar em ambientes desafiadores, cada um exige um esforço cognitivo contínuo, o que, com o tempo, leva à exaustão e ao burnout que muitos adultos autistas descrevem.